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Uma visão sobre a realidade atual do factoring no Brasil

Data: 14.12.2009 Notícia visualizada 113 vezes

Autor: Ernani Desbesel

Os negócios evoluem, os mercados mudam, a verdade absoluta de uns anos atrás, hoje é questionável. É regra da natureza, inclusive do homem, nascer, crescer e morrer. É claro que entre o nascer e o morrer muita coisa acontece, que bom!

No mundo empresarial a evolução é constante e as mudanças acontecem num espaço cada vez menor de tempo. O que antes se fazia em gerações, passou a ser feito em anos, daqui a pouco, até mesmo em meses.

Trazendo esta realidade para o setor de factoring, fico preocupado com a evolução dos acontecimentos. Tenho visto boa parte do empresariado deste setor um pouco apático quanto à adaptação aos novos tempos.

O factoring no Brasil é recente, jovem se comparado a outros ramos de negócios financeiros, porém, não deixa de sofrer com a mudança de cenários econômicos que vem ocorrendo nos últimos anos.

As empresas que praticam o factoring como há 10 ou 20 anos atrás deverão sofrer muitas dificuldades com o passar do tempo. Muitas, inclusive, já não estão aqui pra contar a história. O mercado mudou muito, todos sabem ou deveriam saber.

Tenho na minha lembrança o exemplo de duas empresas gigantes multinacionais que há 30 anos eram lideres no mercado de máquinas de escrever, a IBM e a Olivetti.

Se voltarmos 30 anos na história, poderíamos dizer que estas empresas eram fabricantes e fornecedores de máquinas de escrever e de calcular. Entretanto, uma visão mais ampla e profunda nos permite dizer que eram fornecedores de soluções para comunicação e cálculos. E isso faz muita diferença.

Vejam que os produtos oferecidos há 30 anos por estas empresas já não existem mais, ou quase isso, porém as soluções para a comunicação e cálculos ainda são seus negócios. Evolução e adaptação às novas realidades parece ser o caminho.

Não preciso dizer que a IBM tornou-se uma das líderes no setor de tecnologia da informação e a Olivetti, após uma época de crise na adaptação aos novos tempos, hoje segue na mesma direção.

Gostaria de trazer para reflexão dos empresários de factoring do nosso país o exemplo dessas duas empresas. Qual será o produto oferecido pelas factorings? Muitos dirão que é o dinheiro. Ouso discordar, em parte.

Será que o verdadeiro negócio das factorings não é a "solução para os problemas financeiros de seus clientes"? Não será muito simplista dizer que a solução é somente dinheiro?

Então, se enxergarmos o negócio de factoring como sendo o de soluções para os problemas financeiros, poderemos ampliar a oferta de produtos e serviços para as faturizadas e, por consequência, diversificar a fonte de receitas para as empresas de factoring.

É claro que não estou querendo dizer que o "produto" dinheiro irá desaparecer, mas sim, que se enxergarmos o produto da factoring a ser oferecido como sendo a "solução de problemas financeiros" para as empresas clientes, além de ampliar o leque de receitas possíveis, haverá sempre, a cada tempo, uma melhor capacidade de adaptação às necessidades destes - imaginem se a IBM e a Olivetti tivessem continuado insistindo em fabricar máquinas de escrever.

Ficarmos dependentes somente do fator de compra como única fonte de receita, ou quase isso, levará a drástica redução no número de factorings em nosso país.

O factoring no Brasil teve seu desenvolvimento alavancado por características próprias, baseado numa realidade econômica e social muito diferentes do restante do mundo, e já bastante diferente da nossa atual. Provavelmente, a quantidade de empresas de factoring existentes no mundo não chega a metade do número de empresas de factoring do Brasil, que segundo pesquisas feitas pela Toth Gestão, empresa da qual participava até a pouco, chega próximo de 5.000 factorings realmente ativas.

No início do desenvolvimento do factoring no Brasil, a compra de cheques foi a alavanca principal do setor, seguida da compra de duplicatas logo após. Hoje, todos sabem, a utilização do dinheiro eletrônico vem crescendo e se tornando o principal meio de pagamento. Escrevam, vai ficar com a grande maioria do mercado. Será que duplicatas como vemos hoje, existirão daqui a 10 anos?

Por outro lado o crédito barateou, a taxa Selic puxou os juros para um patamar quase de primeiro mundo. E as factorings, a maioria com volume pequeno, que operam com capital próprio, como ficam? As grandes, com volume de negócios considerável, poderão se adaptar melhor à taxas cada vez menores.

Qual mercado sobra, ou sobrará, para as factorings? Cada vez mais o de maior risco, certamente. E quanta perda pelo risco elevado? A receita do fator possível de ser praticado compensará a perda com golpes, inadimplência, etc.? O que 2010 nos reserva?

A discussão sobre direito de regresso, endosso ou cessão, fiador ou responsável solidário, sped, CRA e outros temas muito debatidos no nosso setor são importantes, certamente, mas penso que a situação provocada pela nova realidade requer a inclusão de novos temas. Creio que devemos ir atrás de novas perguntas, pois só assim teremos novas respostas.

Bem, não podemos ficar somente olhando para os problemas e dificuldades. Reconhecê-los é muito importante, mas esta é só a primeira etapa, após, deverá vir a busca por soluções, assunto este que será objeto de outro artigo.


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